Instituto de Mediação e Arbitragem de Portugal

A Mediação de Conflitos e a Capacitação

“A experiência brasileira tem demonstrado que a capacitação somente teórica não qualifica o profissional”
Costuma-se afirmar que a mediação de conflitos aporta novos paradigmas, que o eixo de atuação e referência do mediador está estruturado em uma visão integrada e responsável de realidades distintas, que são confundidas pela própria individualidade das partes envolvidas em conflitos. Centraliza-se em princípios diferentes daqueles que a sociedade está habituada em seu cotidiano e se impõe pela cooperação baseada na premissa de que o conflito é inerente a toda e qualquer relação. Por isso, o profissional interessado em atuar nesta atividade e desenvolver-se na resolução de conflitos deve buscar sua capacitação a partir dessas premissas fundamentais, cujo eixo de referência rompe com a lógica do “ganhar para não perder” ou mesmo das “concessões mútuas”, para se atingir o reenquadramento da questão e todos ganharem com a sua resolução e o método empregado.
A capacitação acima mencionada, como aponta o professor Juan Carlos Vezzulla, deve trazer o conhecimento mais aprofundado do conflito e todas as suas diversas manifestações, sejam elas ocultas ou explícitas, isto é, como ele nasce, floresce e dá frutos. Para tanto, é necessário uma auto-observação do profissional, já que o conflito limita – e muito – o campo de visão das pessoas e suas diversas interações na sociedade, podendo confundir o próprio mediador, o que de maneira nenhuma poderá ocorrer durante o procedimento. Caso ocorra, o profissional deverá ser o primeiro a declinar da atividade, sob pena de comprometer todo o trabalho.
A capacitação em mediação passa, também, por um aprendizado que deve percorrer passo a passo o procedimento como um todo, para que os conceitos trazidos sejam incorporados de maneira lenta e gradual. Passa por um aprendizado que privilegia a prática de forma gradual e permita incorporar todas as técnicas da mediação, as quais se constituem ferramentas de trabalho fundamentais para o mediador. Passa pela prática supervisionada, sem o conceito da crítica e da indicação do que é certo ou errado, mas com a noção da observação, observação pelo aprimoramento das habilidades peculiares a cada profissional embasada na construção da efetiva criatividade e inovação. Tudo isso em favor dos mediandos, razão principal da atividade. Passa também pela interdisciplinariedade, que enriquece de maneira fundamental a atividade, graças às distintas e ricas contribuições das diferentes profissões.
O Conselho Nacional das Instituições de Mediação e Arbitragem (Conima), consciente destas premissas e baseado na experiência prática de suas instituições filiadas, aprovou um programa mínimo de capacitação em mediação, que vem sendo adotado por instituições brasileiras preocupadas com a qualidade dos profissionais existentes no mercado de trabalho. Este programa estabelece 60 horas mínimas de aprendizado teórico e posterior aprendizado prático mínimo de 50 horas, sempre acompanhado da supervisão dos trabalhos desenvolvidos, de “feed backs” após as reuniões de mediações de casos concretos, bem como de relatórios específicos para uma reflexão acerca
daquilo que foi objeto de estudo na reunião de mediação e o estabelecimento de estratégias para as reuniões futuras.
- O Conima aprovou um programa mínimo de capacitação em mediação que vem sendo adotado em instituições brasileiras
A experiência brasileira – e por que não dizer internacional – tem demonstrado que a capacitação somente teórica não qualifica o profissional, pois ele prescinde do aprimoramento pela prática supervisionada. As dificuldades no dia-a-dia é que permitirão o aprofundamento de sua preparação para auxiliar as pessoas envolvidas em controvérsias. É muito comum observar que profissionais que acabaram de concluir um curso teórico prático em mediação não se sentem preparados para coordenar reuniões de casos reais, pois manifestam a necessidade de mais tempo para a efetiva incorporação das técnicas. Acabam se esquecendo, diante da adversariedade trazida pelas partes envolvidas, de como agir diante da litigiosidade. Há que se fazer de forma gradual com supervisão constante, sob pena de tumultuar o processo de sua aprendizagem.
Estudos e pesquisas apontam que o mediador só pode se considerar e ser legitimado pela sociedade como tal após um mínimo de dois anos de treinamento e aprendizado constantes na coordenação do procedimento. E é este o método que vem sendo adotado por instituições brasileiras, cujo resultado tem sido coroado de tanto êxito que o país vem exportando esta tecnologia para outros, como Portugal e Paraguai. Instituições brasileiras hoje estão participando de projetos de capacitação naqueles países, baseados justamente em um modelo dinâmico que não se restringe a padrões específicos, mas aqueles que retiram de todos eles e os aplicam de forma bastante eficaz e adaptado às necessidades dos usuários, objetivo principal do procedimento. Em verdade, esta característica reflete a mescla de culturas em que o Brasil está emerso e prioriza o respeito à individualidade de cada cidadão.

Artigo por: Adolfo Braga Neto

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A Mediação de Conflitos e a Capacitação