Instituto de Mediação e Arbitragem de Portugal

A necessidade de mudança no contexto escolar

Comentário de Pedro Morais Martins (pode ler a notícia no final do comentário):

Pela nossa experiência, não basta introduzir Mediadores na escola. É necessário uma mudança de cultura dentro da mesma. Neste artigo encontramos uma responsabilização ao mediador e não um trabalho conjunto entre todos os intervenientes no meio escolar para alcançarem resultados que permitam um crescimento institucional e pessoal para os seus colaboradores e alunos.

A conflitualidade escolar traduz uma crise no sistema escolar e seria ilusório crer que as causas da mesma se devem a simples problemas de mau funcionamento como, por exemplo, a falta de meios (professores, materiais, etc.) ou devido ao arcaísmo dos programas de estudo ou dos métodos pedagógicos. Esta visão demasiado fundamentalista não nos permite entender que a crise da escola é mais profunda, e não é outra coisa mais do que uma das facetas da crise generalizada dos nossos sistemas de regulação social.

Os conflitos dentro da Escola podem ocorrer em função dos seguintes factores:

  1. Modelo administrativo autoritário, em vez de participativo;
  2. Comunicação intermediada e não directa. Uma estrutura hierarquizada.
  3. Modelo de relacionamento profissional competitivo e não cooperativo.
  4. Modelo de relacionamento pessoal não respeitoso.

Com a introdução da Mediação estamos perante uma nova cultura no processo de gestão de conflitos dentro da escola. Um conflito bem trabalhado e resolvido pode significar criatividade, inovação e mudança através de soluções que, aplicadas na prática, traduzam modificações positivas na vida escolar. É um novo espaço para a gestão de um conflito, que se apoia numa redefinição das relações entre alunos e os membros da comunidade educativa. Neste contexto, justifica-se plenamente a implementação de políticas públicas de apoio a programas de Mediação Escolar, pois estes pretendem a auto-composição dos conflitos, a auto-regulação das relações interpessoais, a responsabilização pelos próprios actos, a capacidade e a autoridade para gerir os próprios conflitos, a democratização da escola, o reconhecimento do saber resolver e administrar os conflitos por parte das crianças e dos jovens, o serem independentes e, por sua própria iniciativa, lutarem pelo bem-estar dentro da comunidade educativa, ao terem confiança no modo de resolução dos conflitos.

Deste modo um programa de Mediação Escolar global pretende:

1. Um programa de Mediação entre colegas, que trata de conflitos entre estudantes (dimensão horizontal), entre estudantes e adultos (dimensão vertical), e entre adultos (dimensão horizontal).

2. Os pais compreendem o programa, usando as habilidades em casa, dando apoio constante aos filhos.

3. A direcção da escola, os professores, o pessoal auxiliar e administrativo fazem parte activa do programa, usando os princípios da Mediação, implementando o programa e dirigindo os conflitos para a Mediação.

4. Tem de existir formação para todos os intervenientes na escola.

5. O mediadores devem ser os próprios estudantes (no caso de conflitos entre eles);

6. Ensina-se na aula, a todos os estudantes, a resolverem conflitos através da comunicação eficaz e no desenvolvimento de habilidades pessoais (Mediação entre-Pares).

7. Essas aulas devem ser ministradas por professores com capacitação prévia fornecida por Formadores em Mediação.

8. No caso de conflitos de dimensão vertical, o mediador deverá ser externo à instituição.

9. Os adultos procuram resolver os seus conflitos através da Mediação (conflitos entre professores, entre professores e pais, etc.)

Abordar os conflitos escolares através da Mediação permite tornar o sistema onde o conflito é encarado como natural, dando protagonismo para que os intervenientes o possam resolver, estimulando os valores da solidariedade, tolerância, igualdade e criando um juízo crítico estimulando uma capacidade para inovar com a procura de novas soluções. Com a Mediação dá-se realce a princípios básicos como a cooperação, a co-responsabilidade e o respeito, lutando, desta forma, contra a instabilidade emocional que afecta os intervenientes na organização que é a escola.

Artigo do Jornal de Notícias de 12 Agosto de 2008
Mediadores querem trazer “alunos à terra”

Associação de empresários acredita que intervenção dos seus mediadores vai diminuir número de negativas

ALEXANDRA INÁCIO

Trinta e sete por cento dos alunos do 3.º Ciclo tiveram três ou mais negativas no 1.º período no último ano lectivo. Os professores estão habituados a esta tendência, as notas são depois corrigidas até ao Verão, mas uma associação quer inverter a situação.

“Até ao Natal, andam na lua e o nosso objectivo é trazê-los à terra”, explica, ao JN, Diogo Simões Pereira, director-geral da Associação Empresários para a Inclusão Social. A EPIS está no terreno, desde Setembro do ano passado, a montar uma rede de mediadores e a identificar alunos e famílias de risco. Objectivo: combater o insucesso escolar no 3.º Ciclo.

A EPIS acredita que no final do próximo ano lectivo conseguirá, através do seu projecto, diminuir o número de negativas dos alunos. Se em 2010 os resultados forem positivos, o objectivo é alargar a estratégia ao 2.º Ciclo. E assim sucessivamente até chegarem ao 1.º Ciclo, onde começam as deficiências de aprendizagem, sintetizou Diogo Simões Pereira.

Durante o último ano lectivo, a EPIS enviou um inquérito a todas as escolas básicas com 3.º Ciclo, metade (cerca de 600) responderam. Resultado: 20 mil alunos, dos 7.º e 8.º anos, foram analisados pelos técnicos da Associação no terreno, 87% desses respectivos encarregados de educação autorizaram a sinalização de risco pelos mediadores, sete mil alunos foram identificados como sendo de risco e começaram a ser acompanhados. É através da melhoria dos resultados escolares que os empresários acreditam estar a promover a inclusão social.

No ano lectivo de 2006/2007, quase 20% dos alunos do 3.º Ciclo chumbaram e praticamente metade reprovou num dos três anos que compõem esse nível de ensino. 87% dos alunos que chumbaram estão na carteira de proximidade a ser trabalhada pelos mediadores.

A estatística determinou o público-alvo: a EPIS acredita que o insucesso no 3.º Ciclo determina o abandono no Secundário, pelo que um projecto interventivo nesse nível apresentaria resultados ao fim de três anos. A necessidade de apresentar resultados aos associados levou a Associação a não escolher, para já, o 1.º Ciclo, pois “demorariam muitos mais anos até se revelarem” melhorias.

Através de parceria com o Ministério da Educação, autarquias e empresas locais, a EPIS montou uma rede em 11 concelhos-piloto e 88 escolas, que abrange cerca de 30 mil alunos e 10% do insucesso escolar no 3.º Ciclo. No terreno, estiveram 50 técnicos da EPIS – “fundamentalmente psicólogos, assistentes sociais e alguns sociólogos”.

A partir de Setembro, o número de mediadores deve quase duplicar, uma vez que a tutela disponibilizou 45 professores a tempo inteiro para integrar a rede.

Mesmo entre os alunos considerados “sem risco” – que representam 37% do universo de estudantes analisado – mais de 38% têm uma a duas negativas e frequentam aulas de recuperação na escola. A mesma situação que 25% dos alunos de “risco” (63% do total de estudantes). A grande diferença revelada pelo inquérito é que, enquanto a percentagem de alunos “sem risco” com três ou mais negativas é de zero por cento, é ai que se distribuem os restante 58% de alunos considerados de “risco”: 33,7% têm entre três e cinco negativas e quase 24% mais de seis. São estes alunos, considera a EPIS, que necessitam de “uma ajuda transversal, comportamental” à fornecida pela escola.

O objectivo, garante o director-geral da EPIS, é que o mediador crie uma relação de “empatia e compromisso” com o aluno e família. “A escola tem de passar a ser o clube de eleição. O local onde querem passar mais tempo”. Para isso, defendeu, os estabelecimentos não podem estar isolados, mas “ligados às estruturas administrativas”, como as autarquias. Equipamentos como polidesportivos, bibliotecas ou anfiteatros têm de estar indissociavelmente ligados às escolas.

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Artigo por: Pedro Morais Martins